Umbanda e neurodivergência: quando acolhimento espiritual também significa respeitar limites e diferenças
- TUEG LONDRES

- há 2 dias
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Autistas, pessoas com TDAH e outros neurodivergentes vêm encontrando novas formas de viver o terreiro com pertencimento, espiritualidade e cuidado, sem que suas diferenças gerem culpa ou inadequação
Para muita gente, o terreiro é um espaço de acolhimento, pertencimento e conexão espiritual. Mas, para pessoas neurodivergentes, ele também pode representar um ambiente de intensidade extrema. Som alto, cheiro forte, excesso de interação social, mudanças inesperadas de rotina e uma quantidade muito grande de estímulos acontecendo ao mesmo tempo podem transformar uma experiência espiritualmente importante em algo emocionalmente desgastante.
Isso não significa que pessoas neurodivergentes não possam frequentar, desenvolver mediunidade ou trabalhar dentro da Umbanda. Significa apenas que, muitas vezes, elas vivenciam o ambiente de forma diferente.
No TUEG, em Londres, essa conversa aparece cada vez mais entre médiuns, voluntários e consulentes. Pessoas autistas, com TDAH, ansiedade, dislexia e outras neurodivergências têm buscado compreender como participar da espiritualidade sem precisar ajustar sua forma natural de funcionar para conseguir pertencer ao ambiente religioso.
E talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa discussão: acolhimento espiritual também envolve compreender limites, diferenças e possibilidades reais.
Sobre a ideia de que todo mundo precisa funcionar igual
Durante muito tempo, muitas pessoas neurodivergentes acreditaram que havia algo “errado” nelas dentro dos ambientes espirituais. A dificuldade de socializar, o cansaço depois da gira, a sensibilidade ao som, a necessidade de silêncio ou a dificuldade com mudanças repentinas acabavam sendo interpretadas como frieza, desinteresse, falta de preparo ou até ausência de fé. Mas a realidade costuma ser muito mais humana do que isso.
Nem todo mundo processa estímulos da mesma maneira. Algumas pessoas conseguem permanecer horas em ambientes movimentados sem grande desgaste. Outras chegam ao fim da gira completamente esgotadas física e emocionalmente, mesmo tendo participado de tudo com seriedade e comprometimento.
Isso não diminui a espiritualidade de ninguém. Pelo contrário. Muitas pessoas relatam que, quando finalmente encontram um espaço onde não precisam passar o tempo inteiro tentando copiar o modo neurotípico de processar as informações, conseguem viver a espiritualidade com muito mais verdade, segurança e equilíbrio.
Sobre respeitar o próprio limite sem culpa
Existe uma ideia bastante comum em alguns espaços religiosos de que evolução espiritual significa suportar tudo. Mas respeitar os próprios limites também é uma forma de cuidado espiritual.
Para algumas pessoas neurodivergentes, participar de um terreiro pode exigir adaptações simples, como ter acesso prévio às informações sobre o funcionamento da gira, conseguir fazer pequenas pausas quando houver sobrecarga sensorial ou receber orientações de maneira mais objetiva e estruturada. Em outros casos, o desafio pode estar na convivência social intensa, especialmente em ambientes onde existe muita interação ao mesmo tempo. Nada disso impede alguém de desenvolver mediunidade ou fazer parte da corrente.
No TUEG, a compreensão é de que cada médium possui um ritmo diferente de aprendizado e adaptação. Algumas pessoas aprendem observando, outras precisam de repetição, enquanto algumas funcionam melhor em ambientes mais organizados e previsíveis. Nenhuma dessas características torna alguém menos capaz espiritualmente.
Sobre trabalhar no terreiro sendo neurodivergente
Existe um medo muito comum entre pessoas neurodivergentes de nunca conseguirem “dar conta” da vida espiritual dentro de um terreiro. Mas, na prática, muitas delas já trabalham, desenvolvem mediunidade e participam da corrente há anos.
O TUEG, inclusive, conta atualmente com médiuns e voluntários neurodivergentes que ajudam diariamente na sustentação da casa, no acolhimento das pessoas e na organização dos trabalhos espirituais. Isso porque mediunidade não depende de protocolos sociais prontos e rígidos.
A Umbanda não exige que alguém deixe de ser autista, abandone o TDAH ou ignore completamente suas necessidades emocionais e sensoriais para poder exercer sua espiritualidade – até porque isso seria impossível. O que existe é a necessidade de responsabilidade, respeito e construção coletiva, exatamente como acontece com qualquer outro médium.
Com o tempo, muitas pessoas acabam descobrindo formas mais equilibradas de participar da rotina espiritual, compreendendo melhor quais funções geram menos desgaste, quais estratégias ajudam na organização emocional e quais cuidados precisam fazer parte da própria rotina antes e depois das giras.
Sobre inclusão e reasonable adjustments
Seguindo as diretrizes do Reino Unido relacionadas à inclusão e accessibildade, o TUEG também está aberto a conversar sobre possible reasonable adjustments que possam facilitar a participação de pessoas neurodivergentes dentro das possibilidades da casa. Para quem não conhece o termo, reasonable adjustments, em português algo como “adaptações razoáveis”, são medidas previstas na legislação britânica para ajudar pessoas com deficiência, condições de saúde ou neurodivergências a acessarem ambientes, atividades e serviços de maneira mais justa, segura e inclusiva. Na prática, isso significa pensar em pequenos ajustes possíveis que respeitem as necessidades individuais sem comprometer o funcionamento coletivo do espaço.
Isso pode envolver desde alinhamentos prévios sobre funcionamento das atividades até adaptações simples na forma de comunicação e acolhimento. O objetivo não é criar privilégios ou separar pessoas neurodivergentes do restante da corrente, mas permitir que mais pessoas consigam participar do ambiente espiritual com dignidade, segurança e pertencimento real.
Porque inclusão não significa tratar todo mundo exatamente igual. Significa compreender que pessoas diferentes podem precisar de suportes diferentes para acessar os mesmos espaços.
Sobre espiritualidade sem precisar fingir o tempo inteiro
Muitas pessoas neurodivergentes passaram a vida inteira ouvindo que eram “demais” ou “de menos”. Sensíveis demais, quietas demais, intensas demais, distraídas demais, difíceis demais. Com o tempo, isso gera culpa. E essa culpa também chega na espiritualidade. A pessoa acredita que precisa performar um jeito específico de sentir, rezar, incorporar, socializar ou se comportar para conseguir ser aceita dentro da religião. Só que espiritualidade não deveria ser um espaço onde alguém precisa fingir constantemente para pertencer.
No TUEG, a visão é de que os guias trabalham com quem a pessoa é, não com um personagem criado para caber socialmente dentro do terreiro. E talvez uma das experiências mais importantes para muitas pessoas neurodivergentes seja justamente compreender que é possível desenvolver mediunidade, construir uma caminhada espiritual séria e fazer parte de uma corrente sem precisar abandonar completamente a própria forma de existir.
Seja para vir como consulente, conhecer o terreiro ou iniciar uma caminhada dentro da corrente mediúnica, o TUEG busca construir um ambiente onde pessoas neurodivergentes possam ser acolhidas com respeito, escuta e compreensão, dentro das possibilidades e responsabilidades que fazem parte da vida coletiva da casa. Se você é uma dessas pessoas ou conhece alguém que seja, fica o convite: venha conhecer a nossa casa e saiba que será muito bem-vindo(a)!
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